
O corpo feminino passa por muitas fases ao longo da vida, e o climatério é uma das mais transformadoras. Ainda assim, é também uma das menos compreendidas. Ondas de calor, sono fragmentado, alterações de humor, ressecamento vaginal: muitas mulheres chegam ao consultório sem saber que o que estão vivendo tem nome, tem causa e tem abordagem.
O Dia Mundial da Menopausa, celebrado em 18 de outubro, existe exatamente para ampliar essa conversa. Para que mais mulheres cheguem informadas ao ginecologista. Para que os sintomas deixem de ser normalizados em silêncio. E para que essa fase da vida seja vivida com mais qualidade e autonomia.
Este artigo explica o que acontece no corpo durante o climatério, quais são os sintomas mais comuns e o que existe hoje, em termos de abordagem, para manejo dessa fase com mais conforto.
O Que é o Climatério (e a Diferença Para a Menopausa)
Climatério é o período de transição entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva da vida de uma mulher. Ele pode começar antes dos 40 anos e se estender por vários anos, marcado por alterações progressivas na produção hormonal ovariana, especialmente de estrogênio e progesterona.
A menopausa, tecnicamente, é um evento pontual: a data do último ciclo menstrual, confirmada após 12 meses consecutivos de ausência da menstruação. No Brasil, segundo dados da FEBRASGO, a menopausa ocorre em média aos 48 anos, com variação entre os 40 e os 55 anos em mulheres sem condições específicas.
Na prática clínica, climatério e menopausa são frequentemente usados de forma intercambiável no diálogo com as pacientes, embora tecnicamente se refiram a momentos diferentes da mesma trajetória.
O Que Muda no Corpo Durante o Climatério
A queda gradual dos níveis de estrogênio é o fio condutor das mudanças do climatério. E os efeitos dessa queda vão muito além dos fogachos mais conhecidos:
Sintomas vasomotores: as ondas de calor (fogachos) e os suores noturnos são os mais frequentes e os que mais impactam a qualidade de vida. Podem ocorrer de forma leve ou intensa, durante o dia ou a noite, com duração variável entre as mulheres.
Alterações do sono: insônia e fragmentação do sono são queixas muito comuns nessa fase, frequentemente relacionadas aos episódios noturnos de calor e à oscilação hormonal que afeta a arquitetura do sono.
Alterações de humor e cognição: irritabilidade, ansiedade e dificuldade de concentração podem aparecer. Existe relação documentada entre a flutuação hormonal e os neurotransmissores que regulam o humor, especialmente a serotonina.
Saúde geniturinária: o ressecamento vaginal, a redução da lubrificação e o afinamento da mucosa vaginal (atrofia geniturinária da menopausa) afetam a qualidade de vida sexual e podem causar desconforto, ardência e maior frequência de infecções urinárias.
Saúde óssea: o estrogênio tem papel protetor sobre os ossos. Com sua queda, a taxa de perda óssea aumenta progressivamente, elevando o risco de osteoporose ao longo do tempo. A densitometria óssea passa a ser um exame relevante nessa fase.
Saúde cardiovascular: após a menopausa, o risco cardiovascular em mulheres se eleva, aproximando-se progressivamente ao dos homens. A avaliação periódica de pressão arterial, perfil lipídico e outros fatores de risco ganham ainda mais importância.
Abordagens Para o Manejo dos Sintomas
Existem diferentes opções de abordagem, e a escolha certa depende de avaliação individualizada, considerando histórico clínico, sintomas presentes, preferências da paciente e possíveis contraindicações.
Terapia hormonal (TH): é a abordagem mais eficaz para o manejo dos sintomas vasomotores moderados a intensos e da atrofia geniturinária. Quando bem indicada e acompanhada pelo ginecologista, tem perfil de segurança bem estabelecido para a maioria das mulheres sem contraindicações específicas. Pode ser sistêmica (oral ou transdérmica) ou local (para sintomas vaginais).
Abordagens não hormonais: para mulheres com contraindicação à terapia hormonal ou que preferem outra linha de tratamento, existem opções como alguns antidepressivos em doses específicas para sintomas vasomotores, fitoterápicos com evidência moderada e terapias locais para a saúde geniturinária. A eficácia varia e deve ser discutida caso a caso com o ginecologista.
Estilo de vida: atividade física regular, alimentação equilibrada com ingestão adequada de cálcio, controle do peso e abandono do tabagismo têm impacto documentado na intensidade dos sintomas e na saúde global durante o climatério.
Saúde óssea: suplementação de cálcio e vitamina D, avaliação da densidade óssea pela densitometria e, em casos indicados, medicação específica fazem parte do acompanhamento preventivo nessa fase.
Quando Procurar o Ginecologista
A resposta simples: não espere os sintomas ficarem intensos. O acompanhamento ginecológico durante o climatério permite rastrear alterações, discutir opções de manejo e ajustar a abordagem conforme as queixas evoluem.
Situações que merecem consulta em breve:
Sangramento vaginal após confirmação da menopausa (12 meses sem menstruação) exige investigação sem demora. Sintomas vasomotores que impactam significativamente o sono ou o desempenho no trabalho merecem avaliação. Ressecamento vaginal com dor, desconforto recorrente ou infecções frequentes têm abordagem disponível. Queixas de humor intensas e persistentes que interferem na vida cotidiana também entram nessa lista.
O climatério é uma fase da vida, não uma doença. Mas os sintomas que podem acompanhá-lo são reais, e existe abordagem disponível para a maior parte deles.
Normalizar o sofrimento não é obrigação de ninguém. A consulta ginecológica é o espaço para entender o que está acontecendo com o seu corpo, conhecer as opções disponíveis e tomar decisões com informação e suporte adequados.
Se você está nessa fase ou se aproximando dela, esta é a conversa que pode fazer a diferença.
Agende sua consulta e comece esse diálogo com o seu ginecologista.
Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dra. Celene Longo
Ginecologia Diagnóstica e Cirúrgica
CRM 16483 RS | RQE 7375 | RQE 34649
(O conteúdo e as informações dos posts têm caráter informativo e educacional. Não devem ser utilizados para realizar autodiagnóstico ou automedicação. Em caso de dúvidas, consulte seu médico)


